segunda-feira, 21 de junho de 2010

Me encanta


O trecho abaixo, retirado do livro O Jogo da Amarelinha de Pablo Cortázar, retrata, em uma das melhores definições encontradas na literatura, o beijo apaixonado, que para alguns tão raro, mas quando acontece, torna-se inesquecível. A memória fica marcada pelo gosto, pelo cheiro, pelo coração disparado, pela respiração descompassada.


O Jogo da Amarelinha - Capítulo 7
Tradução de Fernando de Castro Ferro.

Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

Júlio Cortázar

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Preto e Branco

É tanto encanto que não passa
Palavras que não chegam
Calor que não aquece

O silêncio conforta com braços gelados
Um beijo salgado, uma frase calada

Esse céu azul que ironiza meu dia
Flores, sabores, cores, rumores
Zumbidos vazios que não acompanham meu ritmo

Joga uma pedra nessa janela
Fuja com sonhos em um balão
Porque o resto se vira sozinho

terça-feira, 1 de junho de 2010

Talvez




A incerteza do futuro em alguns momentos é uma tortura. A incerteza se os planos irão dar certo, se algum de seus sonhos serão concretizados, se os seus desejos mais íntimos serão atendidos.

O medo existe não temendo tragédias, temendo a decepção.

Exato. É essa a palavra que eu tanto procurei nas horas infindas do meu fim de semana solitário. Ela exprime o receio instalado de perder as sobras de esperança, o receio de ser magoada, ou pior, que eu mesma me magoe não alcançando os projetos que desde sempre habitam a minha cabeça.

Essa mania de sonhar demais é o que acaba comigo.