Manhã fria, gotas de chuva rabiscam a janela, o vidro embaça, dá pra rabiscar. Um dia típico, o trabalho esperando dali quarenta minutos.
Ainda é difícil respirar. Pouco mais de uma semana que ele se foi. E ainda dói, o buraco no peito não fechou, o gosto amargo na boca que impede ela de sentir o sabor do mundo. Fez um chá pra se sentir aconchegada, nem isso pra resolver.
Ela sabe que vai passar, que a vida vai continuar, “caramba, tenho só 22 anos”, pensa, tentando ser otimista. Mas o aperto volta pra sufocar, as lembranças malditas, que parecem viscosas e grudentas, não a largam, são insistentes em permanecer ali, nublando o dia já frio.
Lembrou, novamente lembrou, daquele começo inocente. Daquele flerte engraçado, do garoto que sempre via fumar um cigarro no prédio do trabalho, e que um dia veio com papo pela internet. Ela sabia que não era uma boa ideia, ficar assim, tão logo interessada.
Mas ai ela via nele um reflexo seu, de alguém querendo abraçar o mundo, de alguém precisando de uma voz ao lado. E a conversa continuou por algum tempo. Até hoje lembra da primeira música que ele lhe enviou, dizendo que se lembrava dela, João e Maria do Chico. Hoje ela percebe o golpe baixo que foi. Maldito. Ele de algum modo sabia de seu amor por Chico, de sua queda por poetas incompreendidos. E ela caiu nesse papo. Logo ela, que sempre dizia pra todo mundo que nada é pra sempre, muito menos o amor.
As lágrimas queimam, chamadas pelo ódio de si mesma. Não existe mais maquiagem pra borrar, já desistiu a muitos dias de usar algo nos olhos. “Que o mundo veja meu sofrimento”.
O chá esfriou pela metade. Assim como o amor.
Ela joga o resto na pia entulhada de louça, pega o guarda-chuva surrado, e sai pra vida, esperando que esse tempo ruim leve toda a dor que carrega.
Lembra que sentia o amar, tanto e tanto, e tão rápido, e tão cedo. Depois dos primeiros beijos, abraços e transas, aquele garoto poeta logo se tornou seu, dava pra sentir o refúgio dos problemas em seus abraços, a leveza do mundo naquelas conversas doces e fáceis na fila do supermercado, o ciúme arrasando uma noite de dança porque viu uma ex-namorada. Tudo lindo e louco.
Foram tantas noites e manhãs divididas, que o seu coração logo não lhe pertencia mais. Ela sabia que iria sofrer, por amar demais.
E sofreu. O garoto de cabelo preto e barba falha, que lhe fazia rir, foi-se. Ela sabia que o fim estava chegando, os dois sabiam. E quando veio acabou com tudo. Ele gritou que não era mais feliz ao seu lado, e a ela chorou. Chorou baixinho, ajoelhada no canto da sala, abraçada em si mesma pra tentar esconder o buraco que se abria ali no momento em que ele saia, carregando o casaco em um braço e batendo a porta como adeus.
Tudo tão absurdamente clichê ela pensou, óbvio demais.
O vento sopra com força, espalha seus cabelos, embaça seus óculos, e ela usa os poucos segundos de paz na ventania molhada pra sentir tudo o que precisa, de uma só vez.
Não é pra sempre.
terça-feira, 18 de março de 2014
terça-feira, 11 de março de 2014
Vai passar, eles disseram
Vazio. Vazio na alma, no peito. Aquele buraco que não sangra, mas não cura.
Já tentei de tudo colega. Do analgésico a cerveja do boteco Amarelo.
Mas a ausência continua, o coração não querendo bater, os olhos não enxergando o mundo, os pés seguindo as calçadas quebradas, sem saber onde ir ou querer estar.
Ai você lembra: vai passar, larga desse drama, não e o fim do mundo. Você não vai sofrer pra sempre. Eu sei disso. Os livros, as musicas, os amigos já me disseram.
Você não percebe? O meu problema é o agora. Do futuro eu dou conta.
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