quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Desejo a você



Te desejo sorte querido
Com a sua nova garota e amor
Com os sonhos já criados.

Te desejo sorte querido,
Pra que chegue onde quer, que continue criando o que quiser.

Que ela te ame como você a ama
Que ela aceite a sua mão como presença constante
Que você abra todas as portas e janelas
Com uma nova estação iluminando e oxigenando seus cômodos.

O fluxo segue, entra em continuação
A amizade, se possível, ficará? Companheirismo, conselhos, discussões e cafés
Você prometeu que sim, eu gostaria que sim
A casa é sua, quando quiser você sabe que pode entrar.

Mas a tolice já me ensinou que não
Teu rumo tá pra mudar.

E você não quer,
Não quer mais conversar, não quer mais pensar
Não se importa.

E oras, tudo bem.
Te desejo sorte querido.

"Com o tempo a me domar, a me ensinar a esquecer"



Aqueles olhos claros te retornam do espelho, acusadores, inquisidores, te dizendo em silêncio “você não deve lembrar”. Bianca passa a toalha sobre o rosto, desejando que ela pudesse limpar além da remela no canto dos olhos, os sonhos confusos e reais da última noite de sono. Como seria bom olhar para o pano felpudo, branco, e úmido, manchado não apenas com a maquiagem barata que usa nos olhos, mas manchado também com as lembranças indesejadas.

Esse suposto fim é sempre um saco, algo que Bianca pensa para si enquanto prepara o café antes de iniciar o dia. Por mais que tudo foi tranquilo, por mais que não passou de algo breve e aberto, não deixa de ser um sentimento de merda terrível que é preciso se lidar. Um sentimento que relembra de outros, e outros, e mais outras decepções, e principalmente rejeições.

Ela tentou fazer tudo certinho. E sabe que fez. Mas e ai rolou a droga de amizade partilhada também com o sexo, e bom meus amigos, não preciso dizer que complicou pro lado da protagonista.
Nesses poucos minutos que restam, com o som do café caindo ao fundo da garrafa, e o aroma doce preenchendo os cantos da cozinha, Bianca lembra (mesmo sabendo o quão errado é), das mãos postas em sua cintura a pouco mais de uma semana. Bianca lembra dos arranhões e roxos que tatuaram sua pele branca por dias.

E ao concluir o ritual de preparo do café, conclui também: Que se dane. Vou lembrar mesmo, vou lembrar até esgotar. Vou lembrar até que novas lembranças ocupem este espaço.

Pois não há como esquecer o domingo quente e abafado, as paredes suadas, os carros distantes dizendo que o dia começou à pouco tempo. Não  há, como esquecer ela  acordando tão cedo na cama de alguém, levantando na ponta dos pés disposta a não acordar e incomodar.  E nesse dia buscou na bolsa um comprido pra apagar a dor de cabeça, resultado de uma ressaca deliciosa não só de cerveja, mas também de gozos. E ela sorri, satisfeita com o que sentiu e o que transmitiu no processo, por ter dividido os sabores com alguém tão adorável, e por ter sido tão bom. 

Nesse domingo arrastado Bianca olhava sozinha pela janela fracamente iluminada, com os raios de sol iniciais, o ventilador zumbindo ao fundo, e apenas feliz. Sem expectativas, somente feliz consigo mesmo e com o dia anterior e o que se iniciava. Não existiu estalo, não existiu amor à primeira vista e repentina, não era espetacular. Apenas era bom, muito bom.

Era bom conversar por horas e de forma largada, sem forçar. Era bom sentir seus beijos suaves e reveladores, era bom sentar no banco alto e enlaçar sua cintura pela perna enquanto ouvia ao fundo, ruídos fracos do vinil rodando.  Era bom dançar valsa de pés descalços na cozinha, sendo conduzida e ouvindo alguém cantarolar para ela.

Ah, a delícia que era ter todo o desejo derretendo a sua pele, com o seu corpo sendo explorando por beijo, língua, mãos e olhares. Com ritmos mantidos por horas, com breves pausas e longas retomadas. Com a cabeça jogada leve sobre o travesseiro sem pensar em futuros e expectativas, apenas com o sentimento e o corpo conduzido pelo torpor da maré.

Naquele domingo modorrento Bianca voltou à cama com uma camisa branca que não é sua, mas que quase lhe servia. Deitou-se sobre alguém que não é seu e de ninguém, mas que naquelas breves horas pertence a ela. Naquele último domingo, Bianca observou a marca de batom deixada de forma planejada por ela em um pescoço que tem a barba clara ainda por fazer. E nesse último dia, longo e breve, ela repousou seu corpo constantemente sobre o outro, com os pés arranhando as coxas alheias, largados no chão da sala vendo um filme qualquer. Com Bianca encaixando a sua cintura e seu corpo suavemente, subindo quando necessário, tremendo ao som de suspiros e gemidos. E ao longo desse último dia tirar cochilos tranquilos, sem sonhos, buscando abrigo em abraços e cheiros.

Bianca nunca se enganou em pensar que era a única e a última, mas quando realmente percebeu a realidade do fim, doeu do mesmo jeito. Pode ser a amizade que surgiu tão forte, podem ser os momentos compostos por detalhes suaves. Como uma tola achou que tudo era verdade tanto pro outro quanto pra ela.

Nas conversas finais existiram promessas e discursos. “Você irá encontrar alguém tão legal quanto você”. “Não irei sumir, somos amigos”. “Sentirei saudades”. Bianca bebe o café amargo enquanto pinta os olhos com a sua maquiagem escura, e pensa nessas palavras. Em como elas não resolvem nada, e não levam a lugar algum. Pois ela sabe que sim, ela é legal, e sim, existirão amores futuros, ela não quer ouvir isso, ainda mais sabendo que é apenas uma mensagem para que o interlocutor diminua a sua culpa (culpa essa que se existe, não deveria. A vida apenas aconteceu de um modo diferente do esperado, fora do controle).

Sobre o continuarei seu amigo ela ainda duvida, a vida sempre te decepcionou nesse aspecto. Pessoas sempre vão embora e a deixam, por várias razões, e isso também se refere a amigos. Apesar das mensagens ainda trocadas ela sabe que logo, o seu melhor novo amigo irá embora. E isso é um dos seus maiores lamentos.

E quanto a sentir saudades, pois bem, quem irá sentir é apenas ela e sabe disso. O outro não tem direito de sentir. A escolha foi dele, e as saudades serão dela.

“Triste fim o meu”, declara a si mesma.

E mesmo com a saudade ainda pulsando, ela não odeia nem sente mágoa. Está bem, feliz pelo outro. O gosto amargo é apenas por ela, talvez pela repetição do seu próprio passado.

Bianca dá continuidade ao dia. Quem sabe terminando nos braços de outro alguém, ou dormindo abraçada no travesseiro pra aplacar alguma ausência?!

Ela não pensa mais no futuro à muito tempo, ela não aguarda nada para além. Ela apenas escolheu viver, nos momentos bons ou ruins, pois isso irá guia-la de alguma forma em seu próprio roteiro. Seja pela escolha de usar o cabelo longo solto todos os dias, ou de ir tomar cerveja com um desconhecido antes de viajar de ônibus por oito horas. Ou então pela bota que sempre gosta de usar em dias frios, ou pelos convites para almoços breves com o único propósito de conversar. Tudo o que veio até ai, se transformou em algo incrível.

Bianca busca os cigarros esquecidos na mesa, a jaqueta de couro surrada, e ao trancar a porta do apartamento para sair ao mundo, consegue formular apenas uma frase para a suposta despedida, única frase que ela conseguiria dizer em voz alta. “Até logo e obrigada pelos peixes.”

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Espaço


O espaço entre as coxas coladas
Entre o seu braço posto sobre mim
Seu cabelo despenteado cheirando a shampoo pinicando o meu rosto.

 

O espaço entre os lábios que já se roçaram
Entre os olhares que já se cruzaram
Entre os sussurros replicados no quarto escuro desconectado do mundo.
 

O espaço entre suas mãos contando as costelas em meu peito
De seu ouvido colado ouvindo o bater do meu coração
Do seu suor misturado ao meu

O espaço entre nossas mãos, cruzadas na porta de saída.

O espaço já indefinido entre o meu passado que por horas se misturou ao seu
Que por dias e meses não se encontraram mais (e nem irão).


Não sobrou mais o cheiro e o sabor,
Muito menos a luz fria que entrava pela janela, e congelava sobre nossos corpos.
 
E agora o espaço se manteve entre distâncias
entre mensagens trocadas
entre acenos distantes
entre talvez esperanças.