Aqueles olhos claros te retornam do espelho, acusadores,
inquisidores, te dizendo em silêncio “você não deve lembrar”. Bianca passa a toalha
sobre o rosto, desejando que ela pudesse limpar além da remela no canto dos
olhos, os sonhos confusos e reais da última noite de sono. Como seria bom olhar
para o pano felpudo, branco, e úmido, manchado não apenas com a maquiagem
barata que usa nos olhos, mas manchado também com as lembranças indesejadas.
Esse suposto fim é sempre um saco, algo que Bianca pensa para
si enquanto prepara o café antes de iniciar o dia. Por mais que tudo foi tranquilo,
por mais que não passou de algo breve e aberto, não deixa de ser um sentimento
de merda terrível que é preciso se lidar. Um sentimento que relembra de outros,
e outros, e mais outras decepções, e principalmente rejeições.
Ela tentou fazer tudo certinho. E sabe que fez. Mas e ai rolou a droga de
amizade partilhada também com o sexo, e bom meus amigos, não preciso dizer que
complicou pro lado da protagonista.
Nesses poucos minutos que restam, com o som do café caindo
ao fundo da garrafa, e o aroma doce preenchendo os cantos da cozinha, Bianca
lembra (mesmo sabendo o quão errado é), das mãos postas em sua cintura a pouco
mais de uma semana. Bianca lembra dos arranhões e roxos que tatuaram sua pele
branca por dias.
E ao concluir o ritual de preparo do café, conclui também: Que se dane. Vou
lembrar mesmo, vou lembrar até esgotar. Vou lembrar até que novas lembranças
ocupem este espaço.
Pois não há como esquecer o domingo quente e abafado, as
paredes suadas, os carros distantes dizendo que o dia começou à pouco tempo.
Não há, como esquecer ela acordando tão cedo na cama de alguém,
levantando na ponta dos pés disposta a não acordar e incomodar. E nesse dia buscou na bolsa um comprido pra
apagar a dor de cabeça, resultado de uma ressaca deliciosa não só de cerveja,
mas também de gozos. E ela sorri, satisfeita com o que sentiu e o que transmitiu
no processo, por ter dividido os sabores com alguém tão adorável, e por ter
sido tão bom.
Nesse domingo arrastado Bianca olhava sozinha pela janela
fracamente iluminada, com os raios de sol iniciais, o ventilador zumbindo ao
fundo, e apenas feliz. Sem expectativas, somente feliz consigo mesmo e com o
dia anterior e o que se iniciava. Não existiu estalo, não existiu amor à
primeira vista e repentina, não era espetacular. Apenas era bom, muito bom.
Era bom conversar por horas e de forma largada, sem forçar. Era bom sentir seus
beijos suaves e reveladores, era bom sentar no banco alto e enlaçar sua cintura
pela perna enquanto ouvia ao fundo, ruídos fracos do vinil rodando. Era bom dançar valsa de pés descalços na
cozinha, sendo conduzida e ouvindo alguém cantarolar para ela.
Ah, a delícia que era ter todo o desejo derretendo a sua
pele, com o seu corpo sendo explorando por beijo, língua, mãos e olhares. Com
ritmos mantidos por horas, com breves pausas e longas retomadas. Com a cabeça
jogada leve sobre o travesseiro sem pensar em futuros e expectativas, apenas
com o sentimento e o corpo conduzido pelo torpor da maré.
Naquele domingo modorrento Bianca voltou à cama com uma
camisa branca que não é sua, mas que quase lhe servia. Deitou-se sobre alguém
que não é seu e de ninguém, mas que naquelas breves horas pertence a ela.
Naquele último domingo, Bianca observou a marca de batom deixada de forma
planejada por ela em um pescoço que tem a barba clara ainda por fazer. E nesse
último dia, longo e breve, ela repousou seu corpo constantemente sobre o outro,
com os pés arranhando as coxas alheias, largados no chão da sala vendo um filme
qualquer. Com Bianca encaixando a sua cintura e seu corpo suavemente, subindo
quando necessário, tremendo ao som de suspiros e gemidos. E ao longo desse
último dia tirar cochilos tranquilos, sem sonhos, buscando abrigo em abraços e
cheiros.
Bianca nunca
se enganou em pensar que era a única e a última, mas quando realmente percebeu
a realidade do fim, doeu do mesmo jeito. Pode ser a amizade que surgiu tão
forte, podem ser os momentos compostos por detalhes suaves. Como uma tola achou
que tudo era verdade tanto pro outro quanto pra ela.
Nas
conversas finais existiram promessas e discursos. “Você irá encontrar alguém
tão legal quanto você”. “Não irei sumir, somos amigos”. “Sentirei saudades”.
Bianca bebe o café amargo enquanto pinta os olhos com a sua maquiagem escura, e
pensa nessas palavras. Em como elas não resolvem nada, e não levam a lugar
algum. Pois ela sabe que sim, ela é legal, e sim, existirão amores futuros, ela
não quer ouvir isso, ainda mais sabendo que é apenas uma mensagem para que o
interlocutor diminua a sua culpa (culpa essa que se existe, não deveria. A vida
apenas aconteceu de um modo diferente do esperado, fora do controle).
Sobre o continuarei seu amigo ela ainda duvida, a vida sempre te decepcionou nesse
aspecto. Pessoas sempre vão embora e a deixam, por várias razões, e isso também
se refere a amigos. Apesar das mensagens ainda trocadas ela sabe que logo, o
seu melhor novo amigo irá embora. E isso é um dos seus maiores lamentos.
E quanto a
sentir saudades, pois bem, quem irá sentir é apenas ela e sabe disso. O outro
não tem direito de sentir. A escolha foi dele, e as saudades serão dela.
“Triste fim
o meu”, declara a si mesma.
E mesmo com
a saudade ainda pulsando, ela não odeia nem sente mágoa. Está bem, feliz pelo
outro. O gosto amargo é apenas por ela, talvez pela repetição do seu próprio
passado.
Bianca dá
continuidade ao dia. Quem sabe terminando nos braços de outro alguém, ou
dormindo abraçada no travesseiro pra aplacar alguma ausência?!
Ela não
pensa mais no futuro à muito tempo, ela não aguarda nada para além. Ela apenas
escolheu viver, nos momentos bons ou ruins, pois isso irá guia-la de alguma
forma em seu próprio roteiro. Seja pela escolha de usar o cabelo longo solto
todos os dias, ou de ir tomar cerveja com um desconhecido antes de viajar de
ônibus por oito horas. Ou então pela bota que sempre gosta de usar em dias
frios, ou pelos convites para almoços breves com o único propósito de
conversar. Tudo o que veio até ai, se transformou em algo incrível.
Bianca busca
os cigarros esquecidos na mesa, a jaqueta de couro surrada, e ao trancar a porta
do apartamento para sair ao mundo, consegue formular apenas uma frase para a
suposta despedida, única frase que ela conseguiria dizer em voz alta. “Até logo
e obrigada pelos peixes.”